Em que pensas tu?


Há coisas que nunca irei entender mas, ao olhar para esta imagem, quase que posso adivinhar-lhe o pensamento. Creio que deve acontecer com todos, quando chega a altura de subir para o bloco, aquele momento de concentração máxima de quem está prestes a deixar o coração na água, se for preciso.

Antes de o fazer, olha para mim e sorrio-lhe das bancadas amontoadas. Tenho a pulsação tão acelerada quanto a dela, não duvido. E depois, por breves segundos, é como se entrássemos numa bolha, ela lá, eu ali, onde não há barulho nem espaço para mais nada. Ela ajeita os óculos e baixa a cabeça. É sempre igual, uma espécie de ritual. E naquele bocadinho, fá-lo em jeito de oração, que eu sei.

Nunca lhe perguntei em que pensa porque acho que isto é uma coisa muito dela, íntima. Mas adivinho que peça para ser bem sucedida e que se lembre do que lhe digo sempre: "se deres o teu melhor, então vai correr bem".

Tem sido uma imagem recorrente, despercebida na confusão, mas presente. Esteve demasiado tempo parada, desejou demasiadas vezes estar ali e demasiadas vezes achei que não fosse possível recuperar. Mas este metro e meio de gente tem uma vontade maior que ela e, aos poucos, foi voltando.

No meio deste processo todo, algo mudou. Focou-se mais, amadureceu e creio que, pela primeira vez, teve de lutar a sério para conseguir algo. Há treinos intensos, dores, músculos a gritar e noites em que fala imenso de tarefas e de séries. Há a escola e a piscina. Não lhe importa muito o que fica para trás porque o futuro, diz-me às vezes com ar grave, é em cima do bloco.

Eu não sei se será mas mantenho firme a posição de ir com ela até onde for. Sou mãe, massagista, psicóloga e colo e abraço. Têm sido assim os nossos últimos meses, a lutar. E eu com pouca paciência para escrever mas sempre com muitas perguntas dentro.

Em que pensas tu antes de subires, meu amor?
Vai. E sê feliz.

Mãe


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